terça-feira, 11 de janeiro de 2011

Ler e saber

Adoro ler. Se eu pudesse ficaria o dia todo lendo livros interessantes, histórias de amor, dramas, fatos reais, crônicas, poesias, fascículos, monólogos, comédias, etc, etc, etc.... Infelizmente o tempo não permite. Até gostaria de ser aquela intelectual, que sabe de tudo um pouco, mas ainda estou longe de ser assim. Por enquanto leio o que dá. Na vida perde-se muito tempo com coisas fúteis e para os outros e as nosssas coisas pessoais, pessais mesmo - Eu e Eu - fica quando der, e nunca dá.

Eu, por exemplo, tenho uma rotina muito chata. Se eu pudesse fazer o meu tempo ficaria no máximo 5 horas no serviço, porque perco muito tempo todos os dias sem ter o que fazer, sendo que em casa estão precisando de mim, ja que a empregada resolveu sumir de vez. Enquanto estou ociosa tem uma louça me esperando, rs
Com essa rotina fica dificil ler alguma coisa, por isso quando dá leio algumas coisas no serviço, não é sempre.

Tem várias escritores que gosto, mas o que me faz rir e gostar de ler nessas horas vagas é o Luiz Fernando Verissimo. Oh homem inteligente! São histórias rápidas que não tem como quem esta lendo não se imaginar na situação. E o legal é que ele faz rir não com apelos de piadas, mas com colocações inteligentes e combinantes.
E quando a história não é engraçada é verdadeira e cotidiana.

Minhas duas preferidas são:

O Marajá
Comédias para ler na escola
A família toda ria de dona Morgadinha e dizia que ela estava sempre esperando a visita do Marajá de Jaipur. Dona Morgadinha não podia ver uma coisa fora do lugar, uma ponta de poeira em seus móveis ou uma mancha em seus vidros e cristais. Gemia baixinho quando alguém esquecia um sapato no corredor, uma toalha no quarto ou — ai, ai, ai — uma almofada torta no sofá da sala. Baixinha, resoluta, percorria a casa com uma flanela na mão, o olho vivo contra qualquer incursão do pó, da cinza, do inimigo nos seus domínios.


Dona Morgadinha era uma alma simples. Não lia jornal, não lia nada. Achava que jornal sujava os dedos e livro juntava mofo e bichos. O marido de dona Morgadinha, que ela amava com devoção apesar do seu hábito de limpar a orelha com uma tampa de caneta Bic, estabelecera um limite para sua compulsão de limpeza. Ela não podia entrar na sua biblioteca. Sua jurisdição acabava na porta. Ali dentro só ele podia limpar, e nunca limpava. E, nas raras vezes em que dona Morgadinha chegava à porta do escritório proibido para falar com o marido, este fazia questão de desafiá-la. Botava os pés em cima dos móveis. Atirava os sapatos longe. Uma vez chegara a tirar uma meia e jogar em cima da lâmpada só para ver a cara da mulher. Sacudia a ponta do charuto sobre um cinzeiro cheio e errava deliberadamente o alvo. Dona Morgadinha então fechava os olhos e, incapaz de se controlar, lustrava com a sua flanela o trinco da porta.


O marido de dona Morgadinha contava, entre divertido e horrorizado, da vez que levara a mulher a uma recepção diplomática.


— Percorremos a fila de recepção, e quando vi a Morgadinha estava sendo apresentada ao embaixador. O embaixador se curvou, fez uma reverência, e de repente a Morgadinha levou a mão e tirou um fio de cabelo da lapela do embaixador!


— Não pude resistir — explicava dona Morgadinha, séria, entre as risadas dos outros.


— E ainda deu uma espanada, com a mão, no seu ombro.


— Caspa — suspirava dona Morgadinha, desiludida com o corpo diplomático.


Quis o destino que os filhos de dona Morgadinha puxassem pelo pai no relaxamento e na irreverência. Todos os três.


— Meu filho, aí não é lugar de deixar os livros da escola.


— Qual é, mãe? Está esperando o Marajá?


— Minha filha, a sala não é lugar de cortar as unhas.


— Ih, hoje é dia do Marajá chegar.


— Oscar, na mesa?!


— Quando o Marajá vier almoçar, eu prometo que não faço isto.


Certa manhã bateram à porta. Dona Morgadinha, que comandava a faxina diária da casa com severidade militar, fez sinal para as empregadas de que ela mesma iria abrir. Na porta estava um homem moreno, de terno, gravata — e turbante! Dona Morgadinha, que uma vez brigara com o carteiro porque a sua calça estava sem friso, olhou o homem de alto a baixo e não encontrou o que dizer.


— Dona Morgadinha?


— Sim.


— Meu amo manda o seu cartão e pede permissão para vir visitá-la às cinco.


Dona Morgadinha olhou o cartão que o homem lhe entregara. Ali estava, com todas as letras douradas, "Marajá de Jaipur". Não conseguiu falar. Fez que sim com a cabeça, desconcertada. O homem fez uma mesura e desapareceu antes que dona Morgadinha recuperasse a fala.


As empregadas receberam ordens de recomeçar a faxina, do princípio. Dona Morgadinha anunciou para a família que naquele dia não haveria almoço. Não queria cheiro de comida na casa. E era bom todos saírem para a rua até a noite, para não haver perigo de deslocarem as almofadas. Pai e filhos se entreolharam e concordaram:


— O Marajá vem hoje.


Dona Morgadinha apenas sorriu. E estava com o mesmo sorriso quando o marido e os filhos chegaram em casa à noite, depois de comerem um cheeseburger na esquina, fazendo bastante barulho e manchando a roupa. Dona Morgadinha não contou para ninguém da visita do Marajá. Do seu terno branco, do rubi no seu turbante, da sua barba grisalha e distinta. E da conversa que tinham tido, das cinco às sete, sozinhos, entre goles de chá e mordiscadas em sanduíches de aspargo, sobre coisas distantes, sobre o linho e o mármore e a purificação dos espíritos. Naquela noite o marido de dona Morgadinha surpreendeu a mulher com o olhar perdido na frente do espelho. Ela estava tão distraída que foi para a cama sem escovar as unhas, usar o colírio e rearrumar os armários, como fazia sempre.


O Marajá combinou com dona Morgadinha que voltaria dois dias depois, à mesma hora. Estes dois dias dona Morgadinha passou sentada, sem notar nada, esquecida até da sua flanela. O filho mais velho chegou a trazer um vira-lata da rua para fazer xixi no pé da poltrona, mas não conseguiu despertar dona Morgadinha do seu devaneio.


Depois de duas semanas de visitas constantes do Marajá e do mais absoluto descaso de dona Morgadinha pela higiene da família e da casa, o marido resolveu que já era demais. Procurou o seu amigo Turcão, que era árabe e tinha cara de hindu e que ele contratara para se fingir de Marajá e fazer uma brincadeira com a mulher, e disse que era hora de acabar com a brincadeira. Turcão, meio sem jeito, disse que com ele tudo bem, mas dona Morgadinha...


— O quê? — quis saber o marido, desconfiado...


— Ela levou a sério. Está falando até em fugir comigo e ir morar no meu palácio em Jaipur. Negócio chato. Acho melhor contar a verdade para ela e...


Mas o marido de dona Morgadinha percebeu o que fizera. E percebeu que com as almas simples não se brinca. Se descobrisse que fora enganada, dona Morgadinha era capaz de se matar, engolindo detergente. Não, não. Ela não merecia aquilo. Compungido, o marido pediu ao Turcão que continuasse a visitar a mulher. Mas tentasse desiludi-la.


Dando um arroto. Sei lá.
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O encontro
Comédias da vida privada



Ela o encontrou pensativo em frente aos vinhos importados. Quis virar mas era tarde, o carrinho dela parou junto ao pé dele. Ele a encarou, primeiro sem expressão, depois com surpresa, depois com embaraço, e no fim os dois sorriram. Tinham estado casados seis anos e separados, um, e aquela era a primeira vez que se encontravam depois da separação. Sorriram, e ele falou antes dela; quase falaram ao mesmo tempo.


- Você está morando por aqui?


- Na casa do papai.


Na casa do papai! Ele sacudiu a cabeça, fingiu que arrumava alguma coisa dentro do seu carrinho – enlatados, bolachas, muitas garrafas – tudo para ela não ver que ele estava muito emocionado.


Soubera da morte do ex-sogro, mas não se animara a ir ao enterro. Fora logo depois da separação, ele não tivera coragem de ir dar condolências formais à mulher que, uma semana antes, ele chamara de vaca. Como era mesmo que ele tinha dito? “Tu és uma vaca sem coração!”. Ela não tinha nada de vaca, era uma mulher esbelta, mas não lhe ocorrera outro insulto. Fora a última palavra que ele lhe dissera. E ela o chamara de farsante. Achou melhor não perguntar pela mãe dela.


- E você? – perguntou ela ainda sorrindo.


Continuava bonita.


- Tenho um apartamento aqui perto.


Fizera bem em não ir ao enterro do velho. Melhor que o primeiro encontro fosse assim, informal, num supermercado, à noite. O que ela estaria fazendo ali àquela hora?


- Você sempre faz compras de madrugada?


Meu Deus, será que ela vai tomar a pergunta como ironia?


Esse tinha sido um dos problemas do casamento, ele nunca sabia como ela ia interpretar o que ele dizia. Por isso, ele a chamara de vaca, no fim. Vaca não deixava dúvidas de que ele a desprezava.


- Não, não. É que estou com uns amigos lá em casa, resolvemos fazer alguma coisa para comer e não tinha nada em casa.


- Curioso, eu também tenho gente lá em casa e vim comprar bebidas, patê, essas coisas.


- Gozado.


Ela dissera uns amigos. Seria alguém do seu tempo? A velha turma? Ele nunca mais vira os antigos amigos do casal. Ela sempre fora mais social do que ele. Quem sabe era um amigo? Ela era uma mulher bonita, esbelta, claro que podia ter namorados, a vaca.


E ela estava pensando: ele odiava festas, odiava ter gente em casa. Programa, para ele, era ir para casa do papai jogar buraco. Agora tem amigos em casa. Ou será uma amiga? Afinal, ele ainda era moço... Deixara a amiga no apartamento e viera fazer compras. E comprava vinhos importados, o farsante.


Ele pensou: ela não sente minha falta. Tem a casa cheia de amigos. E na certa viu que fiquei engasgado ao vê-la, pensa que eu sinto a falta dela. Mas não vai ter essa satisfação, não senhora.


- Meu estoque de bebidas não dura muito. Tem sempre gente lá em casa – disse ele.


- Lá em casa também é uma festa atrás da outra.


- Você sempre gostou de festas.


- E você, não.


- A gente muda né? Muda de hábitos...


- Tou vendo.


- Você não me reconheceria se viesse viver comigo outra vez.


Ela, ainda sorrindo.


- Deus que me livre.


Os dois riram, era um encontro informal.


Durante seis anos tinham se amado muito. Não podiam viver um sem o outro. Os amigos diziam: Esses dois se um morrer, o outro se suicida.Os amigos não sabiam que havia sempre uma ameaça de mal-entendido entre eles. Eles se amavam mas não se entendiam. Era como se o amor fosse mais forte, porque substituía o entendimento, tinha função acumulada. Ela interpretava o que ele dizia, ele não queria dizer nada.


Passaram juntos pelo caixa, ele não se ofereceu para pagar, afinal era com a pensão que ele lhe pagava que ela dava festas para uns amigos. Ele pensou em perguntar pela mãe dela, ela pensou em perguntar se ele estava bem, se aquele problema do ácido úrico não voltara, começaram os dois a falar ao mesmo tempo, riram, depois se despediram sem dizer mais nada.


Quando ela chegou em casa ainda ouviu a mãe resmungar, da cama, que precisava acabar com aquela história de fazer as compras de madrugada, que ela precisava ter amigos, fazer alguma coisa, em vez de ficar lamentando o marido perdido. Ela não disse nada. Guardou as compras antes de ir dormir.


Quando ele chegou no apartamento, abriu uma lata de patê, o pacote de bolachas, abriu o vinho português, ficou comendo e bebendo sozinho, até ter sono e aí foi dormir.


Aquele farsante, pensou ela, antes de dormir.


Aquela vaca, pensou ele, antes de dormir.

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Beijos

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